Cremes anti-envelhecimento e loções, ervas exóticas e elixires, Botox e cirurgia plástica, o que todos esses tem em comum?
Nenhum deles irá realmente aumentar seu tempo de vida. Normalmente eles são óleo de cobra. E no máximo vão melhorar sua aparência visual sem realmente extender sua vida. Nós merecemos mais e iremos precisar disso se quisermos viver mais do que um séculos e poucas décadas.
A primeira coisa a se perceber é que a natureza não quer especificamente nossa morte, não existe um “gene da morte”. Para qualquer espécie em qualquer contexto ambiental, existe um tempo ideal de vida de um ponto de vista adaptativo, uma optimização evolucionária. Uma estratégia evolucionária inclui espécies que reproduzem rapidamente e morrem depressa também, e outra inclui as que reproduzem vagarosamente e vivem um tempo longo. Pode se falar de qualidade vs quantidade. Nós, os seres humanos, nos enquadramos na segunda estratégia, porém muitos concordam que 80-90 anos não é o suficiente.
Perecemos não por causa de um relógio interno que diz, “Hora de morrer agora!”, mas sim por falta de atenção e cuidados, uma mera negligência. Assim que nós reproduzimos algumas vezes, nos olhos da natureza, nossa utilidade acabou. Somos jogados numa pilha de esqueletos com 600 milhões de anos. Isso é inaceitável, e nos precisamos achar uma nova maneira, como a natureza não está ativamente trabalhando contra nós, somente negligenciando, esse desafio é plausível.
Longevidade na Natureza
Primeiro, vamos procurar na natureza por inspiração. Existem animais com uma vida extraordinariamente longa ou espécies que se regeneram? Sim, existem!
Existe um animal que os cientistas acreditam ser imortal. São as hidras, um simples, microscópico animal de água doce, tem um formato de um pequeno molusco. A natureza achou uma solução nesse pequeno animal para uma regeneração de tecido completa. O biólogo norte-americano Daniel M. Marinez fez um estudo sobre a mortalidade em 3 colônias de hidras por quatro anos seguidos, e nesse tempo , quase nenhuma morreu. Índices de mortalidade eram aleatórios e não correlacionados com idade. Isso significa que eles não estavam apresentando senescência (envelhecimento), e morreram de outras causas. Em quase todas as outras espécies conhecidas, o numero de mortes aumenta com a idade. Não na hidra. Elas morrem comidas, infectadas por vírus, amassadas, mas não por envelhecimento. Pode existe uma hidra de 1000 anos de idade no lago do lado da sua casa. Nós não sabemos pois não existe uma maneira de saber a idade somente olhando eles.
Planárias

Esses estranhos animais que parecem uma lesma amassada com um lado microscópico são outro organismo que os cientistas suspeitam ser imortal. Não existem estudos de caso detalhados sobre isso, porém em muitos casos se você corta uma planária ao meio, ela se torna 2 planárias, e elas vivem tanto quanto uma que nasce por meio convencionais. Se você for sempre cortando uma planária ao meio, ela talvez nunca morra, por que cada pedaço vai continuar a vida.
E quanto aos animais mais complexos? Existem animais da ordem dos Testudinatas (tartarugas, cágados e jabutis). Cientistas examinaram os órgãos internos de tartarugas jovens e idosas e foi descoberto que elas são exatamente iguais. Alguma coisa na fisiologia das tartarugas previne que esses órgãos se deteriorem. Um artigo da revista Discover chamada “Podem as tartarugas viver para sempre” chegou a conclusão que é muito possível que sim. Como as hidras, as tartarugas não tem índices de mortalidade maior com a idade nem declínio reprodutivo. Existem tartarugas com 150 anos que não tem nenhum indicio de envelhecimento. Harriet, a tartaruga de Charles Darwin, nasceu em 1830 e morreu somente em 2006. Ao que parece as tartarugas podem morrer de doenças, machucados ou predação, mas não de envelhecimento. Essa qualidade é chamada de “senescência negligenciada”. Inscreva-me por favor!
Desses examplos animais, é possível observar que é muito cedo para dizer que senescência negligenciada é biologicamente impossível, como freqüentemente é assumido. A natureza parece desinteressada na nossa noção de que organismos tem que envelhecer. A questão é como isso poderia funcionar com humanos? A pessoa que mais viveu na história, Jeanne Louise Calment morreu com 122 anos de idade. É possível quebrar essa barreira?
Entra agora, Dr. Aubrey de Grey, um biogerontologista do Reino Unido e suas “estratégias para a engenharia da senescência negligenciada”. Invés de exclusivamente estudar os complexos processos bioquímicos do envelhecimento em detalhe, como um gerontologista, ou estudando os sintomas do declino da saúde com a idade como os geriátricos, de Grey advoca uma “estratégia da engenharia” para o envelhecimento. Que simplesmente pergunta, quais são as categorias principais de danos bioquímicos relacionados a idade e como podemos consertá-los. A idéia não é eliminar as fontes dos danos relacionados a idade e sim consertar os danos tão rapidamente que eles não vão se acumular e causar danos a saúde. Isso é muito mais fácil que decifrar toda bioquímica do envelhecimento.
Algumas tentativas de estratégias assim já foram propostas anteriormente, porém foi de Grey que a popularizou e a fez respeitável. Não é surpresa que ele tenha conseguido 10 milhões de dólares de doações para sua organização. A fundação matusalém.
Como de Grey aponta, gerontologistas descobriram 7 causas bioquímicas que causam envelhecimento. A ultima causa foi descoberta em 1981, e considerando como nosso conhecimento de biologia aumentou significativamente até o presente momento que é muito possível que essas 7 sejam realmente todas as causas que existem. De grey chama essas causas de envelhecimento de “As sete coisas mortais”, e elas são: (1) perda celular, (2) células resistentes a morte, (3) Mutações no núcleo do DNA, (4) Mutações no DNA mitocondrial, (5) lixo intracelular, (6) lixo extra-celular, (7) crosslinks extra-celulares. E pronto. Se nós descobrirmos remédios ou terapias que podem acabar com esse dano, nós poderemos extender nossas vidas significativamente e alcançar a senescência negligenciada nos humanos.
Uma palavra do ponto de vista filosófico: Muitas filosofias e religiões através do mundo ensinam, ou implicam fortemente, que o corpo depende de uma forca animadora imaterial, uma alma ou chi, para sustentar a vida. Cientistas discordam, o funcionamento do corpo é enraizado nos átomos, moléculas e forcas entre eles. Em 1907, filosofo Frances, Henri Bergeson escreveu sobre o élan vital, a força vital, que anima todas as coisas e guia sua evolução e desenvolvimento. Essa idéia é fortemente ligada a idéia, comum na época, de que moléculas orgânicas não podem ser sintetizadas por precursores inorgânicos. Infelizmente para Bergeson e outros vitalistas, Friedrich Wöhler, o pai da bioquímica, já havia sintetizado uréia de precursores inorgânicos em 1828, e cientistas estavam se convencendo cada vez mais de que as mesmas leis da bioquímica que governa as moléculas inorgânicas governa as orgânicas também.
Porque as leis da química se aplicam a vida e não-vida, envelhecimento é um processo químico não-místico de degradação com causas físicas específicas. É uma questão de preferência se você considera envelhecimento uma doença ou não. Da perspectiva do corpo, envelhecimento é como uma doença, um fenômeno bioquímico de destruição da vida ocorrendo dentro do corpo. E como doenças, envelhecimento é tratável. E somente por conta da complexidade e da aura de inevitabilidade na questão do envelhecimento que as pessoas só recentemente começaram a pensar dessa maneira. Alguns dizem que envelhecer é algo mandado por Deus, e nós não temos o direito de mexer com isso, porém esses argumentos vem das mesmas pessoas que usaram esse mesmo argumento através da historia para protestar contra vacinas, dissecação de cadáveres, transplante de órgãos e várias outras terapias ou técnicas de valor médico altíssimo. É tão radical dizer que ser saudável é algo tão bom que nós devemos usar de quaisquer estratégias éticas que estão ao alcance para atingir esse objetivo?
O plano de Aubrey de Grey é complexo. Para examiná-lo bem e por completo eu sugiro procurar o site da fundação matusalém, ou procurar seu último livro, Ending Aging. Mas eu vou resumir o básico aqui.
A primeira causa de envelhecimento é a perda de células, ou atrofia celular. Durante maior parte de nossas vidas nossos corpos são programados para substituir células quando elas morrem. Nossas células individuais vivem muito menos tempo que o próprio corpo: algumas células vivem alguns anos, outras como células da pele, algumas semanas. Todas elas são constantemente regeneradas usando as células tronco. Com o passar do tempo os processos de recuperação das células começa a falhar. Isso é o que causa atrofia nos músculos em idosos, e esse fenômeno afeta principalmente o cérebro e o coração, nossos 2 mais importantes órgãos. Para solucionar esse problema, duas estratégias já foram propostas: estimular a divisão das células já existentes ou introduzir novas células, possivelmente utilizando células tronco. As duas estratégias estão sendo investigadas.
A segunda causa de envelhecimento são as células resistentes a morte, células que ficam mais tempo do que deveriam. A 3 tipos principais de células culpadas. A primeira são as células de gordura nas vísceras. Células de gordura que vão se juntando em volta de nossos órgãos internos. Esse causa uma perda progressiva na habilidade do nosso corpo a responder a nutrientes do nosso estomago. Eventualmente, pode levar ao tipo 2 de diabete. O segundo tipo dessas células são as células senis, células que já perderam a habilidade de reproduzir. Essas ficam por perto, soltando proteínas que são perigosas para seus vizinhos. É uma grande sorte que eles primariamente se agregam a um só tipo de tecido, a cartilagem nas nossas juntas. O terceiro tipo é uma categoria de células imunes chamadas de “Célula T de mémoria citóxica”. Essas vão acumulando mais rápido do que qualquer outro tipo de célula imune, e se recusam a ir embora, aumentando o o número dessas células e eventualmente causando doença. Existem 2 soluções para resolver esse problema:
Injetar algo que faça as células acumuladas a cometer suicídio mas não tocar nas outras células, ou estimular que o sistema imune mate essas células alvo.
A terceira causa do envelhecimento são as mutações no DNA do núcleo, o centro de toda célula. A maioria dessas mutações não causa dano algum já que elas afetam poucas células de uma só vez. Essas células eventualmente morrem e são substituídas por células não-mutadas. Mutações são perigosas quando elas se tornam células malignas que se replicam, mais conhecido como câncer. Então, achar a cura do câncer é uma sub-tarefa para encontrar a cura para o envelhecimento. De acordo com de Grey, essa é a parte mais importante dessa tarefa, por que o câncer constantemente evolui e nos passa a perna.

Existem diversas estratégias propostas para encontrar uma cura contra o câncer, e a estratégia favorita de Aubrey é a “Intervenção no comprimento de telômeros”. A fundação Matusalém (Methuselah Foundation) diz que o projeto é muito ambicioso e potencialmente mais compreensivo e é a melhor estratégia a longo prazo para combater o câncer dentro de todo o desenvolvimento atual na área. Ela é baseada na vulnerabilidade que é compartilhada entre todas as células cancerígenas: A necessidade de renovar seus telômeros (fita de DNA que não codifica que está nas pontas dos cromossomos). Telômeros de um certo tamanho são necessários para a célula se replicar. Se os telômeros são muito curtos a célula se auto-destrói. Quando um câncer invade o corpo de uma célula, ele começa a se replicar tão rápido que os telômeros se encurtam muito. Para não perder a célula, utilizando a maquinaria da célula o câncer extende os telômeros produzindo as enzimas telomerase, e com isso ela pode se replicar indefinidamente. Tentativas anteriores de cura do câncer tinha como alvo essas enzimas, mas essa nova estratégia propõe remover os genes que contém as informações necessárias para sintetizá-las.
Removendo os genes que fazem essa síntese significa que todas as células com câncer irão se destruir antes de se tornarem um problema, efetivamente curando o câncer. Essa é a linha mais ambiciosa do plano de senescência negligenciada. O maior desafio dessa estratégia é remover esse genes de todos os tecidos do corpo, o que significa que as células naturais do corpo vão ter uma vida limitada pois eles não vão ser capazes de aumentar seus telômeros.
Para contra-atacar isso, será necessário introduzir células tronco com telômeros novos no corpo a cada década mais ou menos. Isso já foi demonstrado em camundongos nas células do sangue e do aparelho digestivo. Pele e pulmões serão os próximos. Quando essa terapia for utilizada para curar o câncer em camundongos, inúmeros recursos irão se transformar em esforço para desenvolver uma terapia que funcione em humanos.

A quarta causa do envelhecimento são as mutações na mitocôndria, as usinas da célula. As mitocôndrias têm seu próprio DNA, menos que no núcleo da célula, mas que parte dele é essencial para sintetizar as proteínas que a formam. Quando esse DNA é danificado a mitocôndria para de funcionar. O DNA mitocondrial é especialmente suscetível a danos por duas razões. A primeira é que as mitocôndrias, sendo o local de respiração celular, são expostos aos famosos radicais livres. Eles reagem com o DNA causando mutações. O segundo é que mitocôndrias não tem a complexa máquina de consertar DNA encontrada no núcleo.
Por sorte, apesar da mitocôndria ser formada por milhares de proteínas, somente 13 delas são sintetizadas usando os genes da própria mitocôndria. O resto é sintetizado no próprio núcleo. A solução para esse problema é mover esses 13 genes críticos da mitocôndria para o núcleo da célula. A evolução já tem feito isso sem nossa ajuda por milhões de anos, nós só temos que terminar o trabalho. Isso requer utilizar terapia gênica para adicionar esses genes suplementares. A terapia gênica ainda está em seus estágios iniciais, mas já tem sido usada efetivamente para substituir genes defeituosos por funcionais, ajudando a curar doenças genéticas. A pesquisa está no caminho para aperfeiçoar o processo e testar em camundongos.
A quinta causa do envelhecimento é o lixo intracelular. As células sintetizam, reconstroem e desconstroem milhares de diferentes moléculas durante suas operações. De vez em quando uma célula acaba com uma molécula tão grande ou estranha que ela tem problema em quebrá-la. Se uma molécula não pode ser quebrada pelo lisossomo ela fica ali para sempre. Em células que não se dividem, isso pode alcançar níveis críticos. Isso inclui algumas células do coração, do olho, algumas células nervosas e células brancas do sangue dentro de artérias. Isso causa doenças como, Alzheimer, Parkinson, degeneração macular (principal causa de cegueira adquirida) e aterosclerose. Para “limpar” esse lixo intracelular é proposto que se equipe os lisossomos com novas enzimas, expandindo assim a quantidade de moléculas que podem ser quebradas, possibilitando a digestão de moléculas grandes.

A sexta causa do envelhecimento são os crosslinks extracelulares, lixo molecular que acumula fora das células, juntando proteínas que normalmente escorregariam umas nas outras. Isso poder levar a dos efeitos mais visíveis do envelhecimento: rugas no tecido. Felizmente essas moléculas crosslink tem estruturas químicas diferentes das moléculas do tecido sadio no corpo, então não será muito difícil encontrar uma enzima que quebre somente elas. Fato, existe somente um tipo de crosslink, chamado Glucosepane, e ele é 98% de todo os crosslinks extracelulares de todo o corpo humano, significando que se for encontrando uma maneira de nos livrarmos desses, esse problema já vai estar quase todo resolvido.
A sétima e ultima causa do envelhecimento é o lixo extracelular, o tipo que simplesmente flutua pelo corpo em vez de se ligar a proteínas. Muito desse lixo são as moléculas chamadas amidalóides, que se acumulam em todos, mas especialmente nos cérebros de pessoas com o mal de Alzheimer. A estratégia principal para lidar com isso já está sendo pesquisada por pelo menos uma empresa, e é estimular o sistema imune, para limpar do corpo essas moléculas.
Podem existir outras causas do envelhecimento que possam surgir depois de resolvermos alguns desses problemas. Temos que esperar para ver. Mas se essas sete causas forem eliminadas, humanos poderão viver substancialmente mais, talvez centenas de anos.
É difícil imaginar por que não lutar contra o envelhecimento, mais que a causa de 100.000 pessoas por dia, ela faz humanos sofrerem por anos e até décadas até a morte, e todos estão sujeitos a isso. Em vez de imaginar o envelhecimento como inevitável, por que não o ver como uma doença e procurar uma cura?
H+ Magazine , Fall 2008